Notas do mini-curso com Henri Atlan – UFRJ 12/2009
14/12
Relação da filosofia de Spinoza com a Biologia do século XX (tese da auto-organização) contra o vitalismo do século XIX.
Causa sui e auto-organização:
O conceito de causa sui em Spinoza se deriva da idéia de totalidade (causa sui em um sistema é um conceito absurdo;o todo dependeria da soma das partes).
Organização do sistema – mudança (exterior e interior)
Complexidade pelo “ruído”: interferências das coisas exteriores provocam mudanças no interior do indivíduo
O conceito de conatus se deriva do conceito de causa sui
Esclarecendo dois mal entendidos:
1)O conceito de conatus – perseverar no seu ser – não é estático, mas dinâmico
2) A noção de esforço por perseverar em si não pode ter a conotação de finalidade, mas uma idéia de fluxo.
Proto-biologia spinozista: teoria do indivíduo enquanto corpo (biofísico).
Ética II (“física”) – metabolismo, crescimento, movimento e locomoção: indivíduo é afetado, mas conserva a sua natureza. Elementos são trocados, mas o indivíduo se conserva.
Para Spinoza movimento não é deslocamento, mas mudança. Pela lei da auto-organização, os sistemas biofísicos são dinâmicos.
Natureza naturante e natureza naturada são uma e a mesma coisa sob diferentes aspectos. Na natureza naturada ressalta o aspecto dinâmico, em constante mutação.
Henri Atlan propõe uma alternativa para a tese da programação genética de Morneau (anos 1960) – Programa genético x noção de auto-organização (Atlan): Não é o DNA que determina o organismo, mas o organismo que interfere no DNA, pela noção de auto-organização do sistema dinâmico.
15/12
Teoria do organismo e teoria do indivíduo
Corolário da EII PXIII
Relações de movimento e repouso
agir e padecer: ação sobre outros corpos, afecções.
Problema da causalidade corpo/alma: prefácio EV sobre a relação corpo/alma
Descartes: animal animado; Spinoza: não há animação vinda de fora; Leibniz: separação do corpo e da alma.
Pela EIII P2 + EII P7 (esc.): não há superioridade causal da alma sobre o corpo.
Mas há uma causalidade da idéia sobre outra idéia e do corpo sobre outro corpo.
Atlan: não pode haver causalidade, uma vez que Spinoza estabeleça que corpo e alma são a mesma coisa sob aspectos diferentes.
Davidson:a teoria de Spinoza é impossível de admitir, dado o problema da causalidade diagonal. (causalidade transitiva) Em: Donald Davidson “Spinoza’s causal theory of affects”. Diferença entre as coisas e as razões.
Mas para Spinoza não há diferença entre coisas e razões, são uma e a mesma, o que coloca em questão a interpretação de Davisdon. – Atlan.
Davidson interpreta Spinoza a partir da sua teoria do monismo anômico (determinar em Davidson é igual a causar)
Em Davidson: coisas – linguagem; ações – explicações.
Atlan pretende responder a objeção de Davidson empregando a distinção apresentada por H. Putnam em “Reason, Truth and History” pp. 98-99.
Identidade sintética das propriedades (Putnam):
A identidade sintética de propriedades não se expressa na linguagem por sinônimos. A identidade na natureza não se expressa em uma identidade na linguagem. Não há correlação analítica. Não há transitividade causal diagonal.
16/12
A ordem das ações e das paixões é a mesma uma vez que a alma não determine as ações do corpo.
Agir: compreender/sentir – ação da alma
EIII Spinoza afirma que a demonstração de P2 não é suficiente para os homens que necessitam da experiência para a compreensão do que é afirmado.
Livre-arbítrio: esta noção esta relacionada á idéia de que a alma causa as ações do corpo. Mas isso não é liberdade para Spinoza.
Ação passional: atividade causada pelos afetos (esta explicação é puramente tautológica)
Ação voluntária: estado mental intencional
Silogismo da ação intencional – modelo mecânico (autômato espiritual x decreto da vontade)
1. Agente A deseja o estado E
2. A crê que C é causa de E
3. Consequentemente A produz C.
Ação voluntária dirigida por um fim. O fim da ação está no começo da ação (decreto da vontade/finalidade – inversão temporal)
Esse silogismo é puramente descritivo, não explicativo.
Problema da teleologia, que não é aceita por Spinoza: ação dirigida por um fim (estado mental intencional).
Na causalidade mecânica a causa precede o efeito.
Atlan propõe outro modelo:
Auto-organização intencional a partir de estudos sobre a rede neural
Intension, 1957 – Anscombe: ação e intenção são uma e a mesma coisa.
Modelo proposto por Atlan para a solução do falso silogismo:
1.Uma rede neural conduz ao estado E por sua dinâmica interna em resposta ao estímulo C
2.Memória da relação E-C
3.As ações de A se organizam a partir desta memória ligada a rede neural (relação E-C).
Neurofisiologia do movimento voluntário
A decisão consciente não parece ser a causa do movimento; ela não precede, mas segue o início do movimento (Benjamin Libet): defasagem entre a ação e a consciência da intenção.
Esta defasagem proposta por Libet parece contrariar o que é dito por Spinoza, uma vez que corpo e alma por serem uma e a mesma coisa sob diferentes aspectos deveriam apresentar uma resposta simultânea.
Mas, segundo Atlan, a rememoração da ação é a própria consciência da ação. (Neurofisiologia spinozista)
Apetite/ação/consciência: EIII,9, esc.
segunda-feira, 15 de março de 2010
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